domingo, 28 de outubro de 2012

Pistoleiros atacam acampamento dos sem-terra e deixam um ferido no Maranhão

Na manhã do sábado, 27, cerca de 20 pistoleiros, fortemente armados, atacaram o acampamento dos trabalhadores sem-terra na fazenda Beira Rio, deixando um dos posseiros ferido em estado grave. A fazenda fica na gleba Sítio Novo, na cidade de Senador La Roque, estado do Maranhão, no nordeste do Brasil.


A fazenda Beira Rio, que possui 8 mil hectares, está localizada em terras do estado, coisa que as autoridades competentes reconhecem. No entanto, foi grilada, anos atrás, por um fazendeiro, que mesmo não tendo como comprovar, alega que as terras são suas. Os trabalhadores sem-terra há seis anos ocuparam a fazenda e a luta pela demarcação dessa área dura até hoje. O governo, através do INCRA, organismo responsável para legalizar essa questão, tem protelado qualquer resolução, o que já provocou vários conflitos durante esses anos. Por duas vezes, os trabalhadores sem-terra conseguiram prender pistoleiros enviados pelo fazendeiro, entregando-os para a polícia e evitando com isso o massacre de famílias indefesas. Enquanto, na região, os fazendeiros andam armados com revólveres, espingardas e, inclusive, metralhadoras, os sem-terra são sistematicamente acossados pela polícia, que deveria protegê-los, mas trabalham em defesa dos latifundiários. São sistematicamente vítimas de investigação policial que só encontram garfos e facas em seu acampamento. E uma área de matas e é normal que os trabalhadores possuam facões, instrumentos necessários para quem vive num local como esse. A polícia leva suas facas e facões alegando se tratar de armas. De qualquer maneira, mesmo que os trabalhadores tenham que se defender dos pistoleiros contratados com o que tem à sua mão, se trata de uma luta absolutamente desigual. Já que o outro lado, gozando de total impunidade, pode usar até metralhadoras. 

O Brasil, que possui um território continental, vive um grave problema de ocupação de terras. Milhares e milhares de trabalhadores do campo não tem como sobreviver por estarem despossuídos de terra, o que os leva a fazer ocupações de terra desesperadas. Se trata da luta pela vida, por uma mísera sobrevivência. É difícil compreender que, em um país dessas dimensões, milhões de pessoas não tem direito sequer a 20 metros de terreno para construir uma pequena cabana ou mesmo uma modestíssima casa. 

O governo do Partido dos Trabalhadores, que está agora no seu terceiro mandato, com a presidente Dilma Roussef, desde sua fundação, escreveu a luta pela reforma agrária como uma de suas bandeiras. Mas, em três mandatos, traindo suas promessas de fundação e também eleitorais, ao subir no governo, jamais tentou fazer ou esboçar qualquer projeto de reforma agrária, o que faz com que o conflito no campo se prolongue e, com ele, as matanças indiscriminadas de trabalhadores do campo e também dos indígenas, que deveriam ser donos indiscutíveis das terras brasileiras. O problema da terra remonta aos primeiros dias da colonização portuguesa. Desde que os primeiros portugueses invadiram o Brasil indígena, surgiu esse problema que não havia até então. Em quinhentos anos a colonização portuguesa e europeia dizimou a maior parte da população indígena, deixando apenas aqueles que viviam em rincões mais afastados. Mas, o desenvolvimento do capitalismo no Brasil, a ocupação extensiva do território gerou enormes latifúndios, grande parte deles improdutivos. Essa situação gerou uma massa de miseráveis no campo, que não tem como sobreviver já que não existem empregos e tampouco possuem escolaridade e qualificação. Há lugar para os bois, para a soja, para a cana de açúcar, mas não há lugar para as pessoas pobres. 

Na quinta-feira, um novo fazendeiro, oriundo do estado da Paraíba, também no nordeste, foi ao acampamento, acompanhado de pistoleiros fortemente armados de revolveres, rifles e metralhadoras. Deu um ultimato dizendo que havia comprado aquelas terras, fato que não sabemoS se é verdade ou não e mesmo se se trata de um fazendeiro, e que os posseiros deveriam sair até o dia seguinte. Caso contrário, seriam atacados. Os posseiros, cerca de 250 famílias, sem ter para onde ir permaneceram no lugar. 

Na manhã de sábado, o fazendeiro paraibano voltou com os pistoleiros em uma camionete preta. Os pistoleiros desceram do veículo e começaram a xingar, gritar e chutar os barracos dos posseiros. Gritaram dizendo que iam cumprir a promessa. Ou fugiam ou seriam mortos à bala. Eles começaram a atirar e as pessoas fugiram em direção à sede da fazenda, ocupando-a até agora. Durante o tiroteio, um dos trabalhadores foi atingido, tendo que ser internado, em estado grave. Foi socorrido no hospital municipal de Imperatriz, cidade da região, mas neste momento já se encontra fora de perigo. 

Depois do conflito, os pistoleiros se esconderam na mata bem como o fazendeiro paraibano que os contratou. A policia militar só chegou ao local depois do almoço, quando o tiroteio já havia acabado, mas continua circulando na área. Os acampados temem que os pistoleiros possam voltar a atacá-los durante a noite e botar fogo no acampamento, o que ocorre muitas vezes nesse tipo de luta. 

Isolados em uma área atrasada do país, os trabalhadores sem-terra da fazenda Beira Rio necessitam do apoio dos trabalhadores de outras partes do país e do mundo. Nesses rincões não existe a lei, o que prevalece é a impunidade, a lei das balas dos pistoleiros. 

Os trabalhadores decidiram continuar a ocupação da sede da fazenda até que o INCRA lhes dê a posse da terra e pedem o seu apoio. 

(Reynaldo Costa)

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