domingo, 25 de setembro de 2011


Campeão de audiência

Deus está em alta no mercado cultural: vende discos e livros, além
 e espíritas movimentam quantias milionáriasde atrair multidões para 
os cinemas brasileiros. Católicos, evangélicos

Carol Braga - EM Cultura 
Thaís Pacheco - Estado de Minas
Daniel Pinheiro/Divulgação













































Ok, ele é um dos padres mais pops do Brasil. Mesmo sabendo disso, é fácil se impressionar
 com os números em volta de Marcelo Rossi. Em 13 meses, Ágape, o livro dele, vendeu 6
 milhões de exemplares. Em sete dias, lá se foram 430 mil cópias do CD Ágape musical, 
que chegou às lojas no mês passado. Em 1º de dezembro, o sacerdote inaugura o Santuário
 Mãe de Deus, em Santo Amaro, Zona Sul de São Paulo. Capacidade: 100 mil pessoas. Somente
 a primeira etapa da obra custou R$ 25 milhões. Detalhe: essa fortuna saiu do bolso dele.

"Nunca pedi dinheiro a ninguém. Mas devo concordar: os compradores do CD sabiam que
 estavam ajudando", diz. Ao longo da carreira, Padre Marcelo contabiliza 10 milhões de 
cópias vendidas de oito CDs e quatro DVDs. O fenômeno não se limita a ele. Produtos
 culturais ligados à religião são parcela importante dos mercados editorial, fonográfico
 e audiovisual do país.

A última pesquisa divulgada pela Câmara Brasileira do Livro informa: o número de exemplares
 ligados à temática religiosa aumentou 39,23% entre 2009 e 2010. Para ter uma ideia do que 
isso significa, foi de 18,4% o incremento relativo a livros didáticos no mesmo período.


No cinema, entre os 10 filmes de maior bilheteria do país nesta década estão Nosso lar e
 Chico Xavier, ambos de abordagem espírita. Sem falar nas igrejas e nos músicos que 
garantem expressiva fatia das vendas em lojas de instrumentos musicais. Na tradicional
 Serenata, em Belo Horizonte, esses clientes são responsáveis por 35% do total comercializado.

Cuidado

  Pioneiro da música cristã brasileira, Padre Zezinho analisa os números com cuidado.
 Para ele, a atual potência da mídia religiosa pode ser entendida sob dois aspectos.
 De um lado, a mística; do outro, o marketing. "As coisas vindas da mística superam o 
tempo da promoção. O marketing da fé é efêmero,passageiro, dura cinco ou 10 anos.
 Este momento é bom para a mídia religiosa, mas não devemos nos iludir. Virão outros 
enfoques, porque a mídia precisa de novidade", analisa.

Foi por causa de Padre Zezinho que guitarras e baterias entraram nos templos católicos.
 A carreira artística dele começou em 1967 e o religioso continua arrastando multidões. 
"Nunca me expus muito. Podemos usar a metáfora do Sol. Quem deseja se bronzear na
 praia usa proteção e se expõe pouco. Encantar-se demais com os holofotes é como 
aquele que foi à praia, ficou 15 horas debaixo do Sol e volta de lá queimado", compara.

Além de vários livros, Padre Zezinho lançou 58 discos. Seu repertório foi muito regravado.
 Composições dele, Amar como Jesus amou e Oração pela família acabam de chegar às 
lojas na coletânea lançada pela cantora Joanna. O novo álbum do sacerdote, Quando Deus
 se calou, foi indicado ao Grammy Latino deste ano. Mas ele avisa: não vai à festa da 
indústria fonográfica mundial, marcada para novembro, nos Estados Unidos. "É holofote
 demais para o meu projeto de vida", justifica.

Ágape é o projeto de vida de Padre Marcelo. Surgiu quando ele se recuperava de um
 acidente na esteira ergométrica. Como preferiu não ser operado (queria se encontrar
 com o papa seis meses depois da queda), o jeito foi passar 90 dias sem pôr os pés no
 chão. "Sou apaixonado pelo canto. O máximo que faço é compor orações. Como minha
 vida era da cama para o banheiro, falei: 'Vou escrever'. Recebi a visita do Gabriel Chalita
 e ele ficou emocionado com o material. Foi realmente uma obra de Deus", garante Marcelo 
Rossi.

O padre usa Ágape nos programas de evangelização que apresenta no rádio e na TV. Foi 
principalmente graças ao livro que ele conseguiu concluir a primeira etapa das obras do 
templo paulistano, com projeto arquitetônico assinado pelo respeitado Ruy Ohtake. Com
 suntuoso teto em curvas, capacidade para 35 mil pessoas no espaço interno e até 100 
mil com as portas levantadas, a igreja tem estrutura completa para transmissões televisivas. 
"O cabeamento passa todo por baixo do altar. É um santuário moderno", comemora Marcelo
 Rossi.

A partir de dezembro, as missas serão celebradas de quinta-feira a domingo. Os outros dias
 serão exclusivos dos pedreiros. "Ainda falta metade, mas Aparecida demorou quantos anos 
para ficar pronta? O que estamos fazendo é maior que o Itaquerão", brinca, referindo-se ao
 estádio do Corinthians prometido para a Copa de 2014.

Padre Marcelo considera o livro a salvação de seu sonho. Com projeto editorial bem
 encaminhado,
as expectativas agora se voltam para o disco Ágape musical. Das 14 faixas, sete são conhecidas 
dos católicos, como Maria de Nazaré (Padre Zezinho), e sete dos evangélicos. "É um CD contemplativo.
 Fiz essa mescla para mostrar que não quero converter ninguém", garante.
Além do resultado das vendas, a repercussão do disco tem surpreendido Marcelo Rossi. Empolgado, revela que agradou a seu crítico mais severo: o bispo dom Fernando, da Diocese de Santo Amaro. Esse padre artista, aliás, não para de inventar "filhotes" de Ágape. "Quero fazer um karaokê. As músicas estão tão gostosas de cantar... Imagine dar notas para as pessoas. Seria legal", planeja.

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