sábado, 21 de maio de 2011

Especial Irmã Dulce: Após morte, ‘filhos’ de todas as classes se despediram em dia histórico


A religiosa partiu após lutar contra uma doença que comprometia sua capacidade respiratória e, por 16 meses, a manteve refém de aparelhos




Victor Uchôa | Redação CORREIO
victor.uchoa@redebahia.com.br

Naquela tarde, os sinos dobrados na Basílica do Bonfim anunciaram o que muitos esperavam e ninguém queria: Irmã Dulce estava morta. O toque aos finados que descia a Colina Sagrada ganhou cada beco da Cidade Baixa, ecoou no Porto da Lenha, entrou pelo Dendezeiros, parou o trânsito e arrastou o povo para as ruas. Era hora de se despedir da Mãe dos Pobres.


No braços da multidão. Assim ficou o caixão com o corpo de Dulce antes do sepultamento

Às 16h45 do dia 13 de março de 1992, uma sexta-feira, Irmã Dulce parou definitivamente de respirar, aos 77 anos. Partiu após lutar contra uma doença que comprometia sua capacidade respiratória e, por 16 meses, a manteve refém de aparelhos.

Antes que a noite caísse, uma multidão já havia se juntado na porta do Convento Santo Antônio. “Ela passou por uma longa agonia e havia a expectativa pela notícia. Então a comoção foi geral”, diz o padre Walter Andrade, reitor da Basílica do Bonfim na época da morte de Irmã Dulce.

Hoje à frente da Paróquia da Purificação, em Santo Amaro, no Recôncavo, Padre Walter lembra daqueles dias. “Foi um corre-corre em direção ao convento, mas não dava pra entrar todo mundo, então muita gente ficou em vigília do lado de fora e dali mesmo saiu acompanhando o caixão no dia seguinte”.

Na manhã de sábado, a Marcha Fúnebre executada pela Banda Marcial da Marinha deu a partida no caminhão dos bombeiros que levou o caixão até a Basílica da Conceição da Praia. No caminho, mais sinos dobrados, agora na Igreja dos Mares.






Cortejo
As principais avenidas da Cidade Baixa foram interditadas para dar espaço à multidão. Na caminhada, que reuniu cerca de 6 mil pessoas, muitos “filhos” de Irmã Dulce - mendigos, deficientes, pobres, velhos e jovens.
“Quase um cortejo do Bonfim às avessas”, define o cirurgião Taciano Campos, atual diretor médico das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), que também caminhou do Largo de Roma até o Comércio. “Foi uma apoteose. A praça em frente à Conceição da Praia ficou apinhada de gente”, lembra doutor Taciano.

“Era o povão que estava ali, porque pra ela todo mundo era igual. Se prometia alguma coisa, cumpria. Ela vivia o sonho dos outros”, completa o motorista Zeilton Bonfim, 60 anos, há 30 na Osid.

Com o caixão na Conceição da Praia, a massa humana só crescia. Subiu a Montanha, ganhou a rua do Corpo Santo e alcançou a Praça da Inglaterra, mas a espera não abalou quem queria ver o corpo.

“A expressão das pessoas era de quem havia perdido alguém muito próximo. Eles perguntavam: quem vai me dar comida? Quem vai me dar abrigo?”. O relato é de Irmã Olívia, freira que estava no leito de morte de Irmã Dulce e não saiu do lado do caixão até o sepultamento.

“Fiquei mais de três dias acordada”, diz a religiosa, na Osid desde 1976. O velório entrou pela noite e seguiu no domingo. As ambulâncias socorreram 170 pessoas vencidas pelo calor, pelo cansaço, pelo aperto ou por tudo isso junto. A Polícia Militar mobilizou 800 homens para conter a multidão saudosa.

Sepultamento 
Ainda que a fila não tivesse acabado, o corpo precisava ser sepultado. Dom Lucas Moreira Neves, então arcebispo primaz do Brasil, presidiu a missa campal de corpo presente, no final da tarde de domingo.

“Irmã Dulce não gerou filhos, mas foi elevada por Deus a educar e nutrir vários filhos da Bahia”, disse o cardeal em sua homilia, ouvida por mais de 200 mil pessoas. Entre os presentes, o então governador Antonio Carlos Magalhães, o senador José Sarney, que deixara havia dois anos a Presidência da República, e Fernando José, prefeito de Salvador na época.

Despedida 
O Hino do Senhor do Bonfim é entoado em coro. Para além da dor, paira no ar a compreensão de que quem partia cumpriu bem sua tarefa. Então, frente a um mar de lenços brancos, membros da Irmandade da Conceição carregam o caixão - coberto com bandeiras da Bahia e do Brasil - até o Altar de Santo Cristo. Enfim, o corpo de Irmã Dulce é sepultado, mas só simbolicamente.

“Na noite de domingo, recebi uma ligação avisando que o povo que não tinha entrado no velório queria quebrar o túmulo pra tocar nela. Aí botaram o caixão de novo no centro da igreja pra quem quisesse ver. Ela só foi sepultada mesmo segunda-feira”, conta Irmã Olívia.

Em meio a todos que foram se despedir de Irmã Dulce, estava Wilsenia Pereira, 81 anos. A idosa, que mora há 40 anos no Bonfim, caminha com dificuldade, mas, a poucos dias da Igreja Católica beatificar a freira baiana, afirma sem vacilar: “Hoje eu sou evangélica, mas pode escrever aí, meu filho. Se Irmã Dulce virar santa, não vai ser surpresa nenhuma pra mim. Ela era maravilhosa. Eu fui lá beijar os pés dela”.

Em 2010, corpo foi sepultado em local definitivo
O caixão com o corpo de Irmã Dulce passou oito anos na Igreja da Conceição da Praia. Em maio de 2000, os restos mortais da freira foram levados para a Capela do Convento Santo Antônio. “Fui eu que fiz esse translado.

Nem consigo descrever a emoção, porque eu andava com ela todos os dias viva e transportei os restos mortais dela”, diz o motorista Zeilton Bonfim. Naquele momento, já foi impressionante o estado de conservação do corpo. Entretanto, a admiração tomou conta mesmo das pessoas no ano passado, quando o corpo foi exumado para ser sepultado definitivamente na Igreja da Imaculada Conceição da Mãe de Deus.

O corpo aparentava ter sido mumificado, as roupas estavam em bom estado e havia pouco odor. Entre 8 e 9 de junho, milhares de pessoas participaram da vigília diante das relíquias (como são chamados os restos mortais de beatos) de Irmã Dulce. Uma semana antes, o corpo havia sido exumado sob a supervisão de representantes do Vaticano. No dia 9, uma missa solene foi celebrada por Dom Geraldo Majella Agnelo, que ainda era arcebispo primaz do Brasil. “Isso é uma coisa de Deus”, definiu o cardeal.

Pulmão limitado
Nos últimos 30 anos de vida, Irmã Dulce sofreu com uma doença que chegou a comprometer 75% de sua capacidade respiratória. A bronquiectasia, que provocou infecção das vias aéreas, levou a freira até o pneumologista Almério Machado, que a acompanhou por cerca de 10 anos. “Ela foi ficando cada vez mais limitada e sofria muito”, diz o médico.

Já o motorista Zeilton Bonfim lembra do dia em que Irmã Dulce o surpreendeu. “Ela ficou sem ar, botou a cabeça pra fora e perguntou se o carro não podia correr mais. Morri de medo que ela morresse ali”, relata. A partir do episódio, um torpedo de oxigênio passou a ser mantido no veículo.

Com a evolução da doença, a freira passou seus 16 meses finais presa a aparelhos montados em seu quarto no Convento Santo Antônio. Ali, recebeu o papa João Paulo II em outubro de 1991. Frágil, teve o fêmur quebrado apenas por se movimentar na cama. Em março de 1992, não resistiu à enfermidade.


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