sexta-feira, 25 de março de 2011

O pecado da intolerância

A intolerância religiosa não é algo que atinge apenas uma religião, isso é fato. Cada qual ao seu grau. O que acontece é que no Brasil nenhuma outra orientação religiosa foi tão massiva e historicamente perseguida como as religiões denominadas afro-brasileiras, entre elas a Umbanda e o Candomblé. Um estu-do mais aprofundado nos mostra que o motivo primórdio desse preconceito é justamente o fato de ser afro-brasileira. Como tudo que veio da África, como tudo que está relacionado ao negro - por melhor que seja - por mais bonito, sofre ou já sofreu muito preconceito. Podemos citar como exemplos a capoeira, a feijoada e o samba.

E é mesmo um preconceito histórico. Na época do Império, o Código Criminal de 1830 considerava crime o culto de religião que não fosse a oficial. Em 1832, um decreto obrigou os escravos a se converterem à religião oficial. Quem não se convertesse e continuasse a realizar suas práticas religiosas originais era acusado de feitiçaria e castigado com pena de morte. Até 1976, havia uma lei no Estado da Bahia que obrigava os templos de religiões afro-brasileiras a se cadastrarem na delegacia de polícia mais próxima, o que mostra claramente que eram tratados como um perigo para a sociedade.

Aqui em Bauru, nunca tivemos esta lei, mas em conversa com sacerdotes e sacerdotisas mais velhos, atestamos que muitas vezes para se abrir um templo de umbanda ou candomblé alguns tinham que se manifestar mediunicamente – incorporar – na frente de delegados e policiais. Constrangimento e humilhação são eufemismos para definir isso.

Hoje vivemos, segundo a nossa Constituição Federal de 1988, em um país laico, ou seja, sem religião oficial. O Estado não pode privilegiar nenhuma orientação religiosa, como também não tem o direito de embaraçar o fun-cionamento de nenhuma outra. Pena que isso fique apenas no papel, pois em todas as esferas do poder, presenciamos o privilégio a algumas e o embaraçamento a outras.

As famosas igrejas eletrônicas e também o radicalismo de alguns pseudo-religiosos vêm contribuindo para o inverso do propósito de qualquer religião. Lembremos que este termo “religião” vem do latin “religare”, que significa proporcionar novamente a ligação do homem com Deus, ou seja, com o sagrado. Não creio que toda esta incitação ao ódio, à violência e à falta de respeito proporcione isto, ao contrário.

Segundo um dado da ONU (Organização das Nações Unidas), 75% dos conflitos bélicos no mundo têm algum fundo religioso. No Brasil, esta “guerra santa” atinge principalmente aquelas religiões que são tidas como minorias. Ainda hoje muitos templos de Umbanda e Candomblé são depredados, sacerdotes e sacerdotisas são agredidos, adeptos das religiões afro-brasileiras são discriminados e constrangidos, crianças da Umbanda e do Candomblé sofrem preconceitos nas escolas. São os efeitos cancerígenos de uma sociedade incitada ao ódio contra tudo àquilo que é diferente ou desconhece.

Finalizo lamentando que ainda estejamos longe de fazer a nossa Constituição Federal valer, uma vez que nem mesmo nossos governantes a respeitam. Reafirmo que a luta pela liberdade religiosa, pelo respeito religioso de fato, deve ser de toda a sociedade, de todas as orientações religiosas. Como disse em 1933 um sábio pastor luterano alemão, chamado Martin Niemöller: “Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar”. A manifestação da fé individual e coletiva é a manifestação do que o ser humano tem de mais puro, de mais sagrado, e não deve ser reprimida, nunca. Grande abraço e muito Axé! (O autor,Ricardo Barreira, é babalorixá da Aldeia Tupiniquim, fundador do Instituto Sócio Cultural Umbanda Fest e presidente da Federação Estadual de Umbanda e Candomblé Reino de Oxalá Contatos: www.ricardobarreira.com)

Ricardo Barreira



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