segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Voluntários no Rio mostram que é possível pôr o coração acima da dor

Publicação: 16/01/2011 09:47 Atualização:
Teresópolis (RJ) – É difícil encontrar alguém que não conheça um morador de Teresópolis morto por causa das chuvas que provocaram o maior desastre natural da história do país. Diante do pânico vivido nesta semana na região serrana do Rio, a solidariedade virou regra na cidade. Os voluntários atuam em várias frentes: na busca por vítimas, na distribuição das doações arrecadadas, no atendimento médico e até no controle de trânsito. São tantos que ninguém consegue quantificar. Gente como Rosymere Rodrigues Felipe, de 50 anos. No ginásio Pedro Jahara, transformado em abrigo para os sem-teto, ela dribla a própria dor para ajudar crianças e idosos que se espalham na quadra onde os moradores que perderam tudo esperam retomar a vida.
alcemar Alves Cardoso, que cuida de gado e plantações, assumiu o papel de coveiro para ajudar (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A./Pres/D.A Press)
alcemar Alves Cardoso, que cuida de gado e plantações, assumiu o papel de coveiro para ajudar


“Sou diabética e faço tratamento para câncer. Trouxe todos os medicamentos para ficar aqui das 7h às 17h. Terminei a quimioterapia neste mês. Mas não abro mão de ajudar. Dou banho nas crianças, faço a barba dos mais velhos, que são os mais frágeis. Estou cuidando de um que perdeu toda a família”, conta Rosymere, aliviada por não ter mortos entre os mais próximos. Faz menos de uma semana que ela passou por uma sessão de quimioterapia para tratar de um tumor no ouvido esquerdo. Mesmo assim, não abre mão de cuidar dos desabrigados.

No seu segundo dia como voluntária, a freira Auxiliadora Marchezi, 70 anos, garante que o melhor a fazer “é prestar assistência espiritual às vítimas”. “Me ofereci na cozinha também, mas não teve necessidade. Passo em cada família para perguntar se precisam de algo e para ouvir suas histórias. São raros aqui os que não perderam familiares. ‘Salvei dois filhos e não salvei uma de dois anos. Como pode isso?’, questionou uma mãe. Um rapaz conseguiu salvar os filhos, mas perdeu esposa, sogra e cunhada. Outros perderam muito mais”, lamenta.

Jalcemar Alves Cardoso trocou o gado e a plantação do sítio onde trabalha para ajudar a abrir covas no Cemitério Carlinda Berlim, em Teresópolis, onde os enterros estão ocorrendo até de madrugada. “Vim dar uma força aqui, estamos aí para somar”, diz o homem de 46 anos, enquanto tira terra de um dos 200 buracos abertos no local nos últimos três dias. Casado e com dois enteados, Jalcemar sente-se aliviado por sua casa ter ficado intacta. “Ajudar não custa nada, até para agradecer nossa salvação.”
"Sou diabética e faço tratamento para câncer. Trouxe todos os medicamentos para ficar aqui das 7h às 17h. Terminei a quimioterapia neste mês. Mas não abro mão de ajudar", diz Rosymere Rodrigues Felipe, de 50 anos

Assim que soube, por um amigo, que a equipe de 15 coveiros do cemitério precisava de ajuda, Jalcemar se candidatou. Desde quinta-feira, ele colabora com a equipe de 15 coveiros que prestam serviço para o cemitério Carlinda Berlim. No dia em que a abertura de covas começou, ele ficou 12 horas no local, ajudando. A compreensão dos patrões, diz o caseiro, foi imediata. “Não tem problema nenhum eu ficar aqui o dia inteiro. Eles me liberaram para ajudar os outros”, afirma Jalcemar.

Alexandre Correia da Silva uniu a paixão por jipe e o desejo de ajudar as vítimas das chuvas. Vindo do Rio de Janeiro, num comboio com amigos, ele chegou a Teresópolis por volta das 10 horas determinado a alcançar os lugares ainda ilhados, muitos com acesso apenas por helicóptero. Nos carros, muita água, alimentação, material de limpeza, vela e fósforos. Jonatas Freire, de 22 anos, também chegou, de Niterói, sem previsão de voltar. “Morava aqui, já perdi oito pessoas e temos umas 30 desaparecidas. Quero ajudar”, diz, enquanto se prepara para entrar no Calene, um bairro muito atingido de Teresópolis.

O advogado Roger Rodrigues Lippi trocou o escritório onde trabalha de dia e as salas de aula do preparatório para juiz que frequenta à noite para ajudar. Ainda na quarta-feira, ele foi entregar mantimentos no maior abrigo da cidade e acabou ficando para organizar as caixas. De lá, recebeu um chamado da Ordem dos Advogados do Brasil para ser voluntário no necrotério montado par receber os corpos. Além de ajudar, como advogado, nos trâmites jurídicos para liberação de corpos, Roger atende as pessoas na fila e gerencia as senhas. “A gente vai fazendo o que for preciso”, explica.

No entanto, a secretária municipal de saúde de Teresópolis, Solange Cirico Costa, afirma que o número de voluntários na cidade ainda é insuficiente. “As pessoas se cansam e precisamos revezar equipes”, informa. Até a tarde de ontem, havia mais de 550 mortos na região serrana.

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