terça-feira, 21 de dezembro de 2010

SEBASTIÃO CARLOS

Qual a sua imagem de Cristo? 

Às vésperas de final de ano, de entremeio o Natal, é a época em que nos vemos imantados por um sentimento difuso de fraternidade, de solidariedade e, vamos lá, usemos a palavra, de amor. Mas, venho me perguntando, isto será mesmo verdadeiro na atualidade ou não passa de um lance de romantismo, herança do passado, um dejá vu? Se tal sentimento foi outrora mais disseminado e intenso, podemos dizer que ele persiste ainda? Ou, o que nos parece restar agora é tão somente a corrida rumo às compras, aos shoppings centers e à necessidade imperiosa de partir para algum lugar no espairecimento das férias? A maioria de nós, desde a mais tenra idade, pelo menos nesta época do ano, foi estimulada a pensar no maior profeta da humanidade, suas lições, sua vida, seu padecimento.

Para mim, desde sempre, a imagem mais marcante e impressionante de Cristo, o Deus feito homem, cujo nascimento se comemora, é aquela em que, irritado e transtornado, adentra ao Templo de Jerusalém e sem complacência chicoteia aqueles que haviam transformado em mercado o local sagrado. Desde cedo, a visão daquele homem indignado pelo ultraje, fustigado pela ira santa, inflamado pela coerência de sua ética, ficou indelevelmente gravada em minha memória. Os vendilhões do templo atravessaram os séculos e marcaram presença em todos os momentos da grande religião em que se transformou o Cristianismo. Em nome de Deus, da religião, (ou das religiões), se fizeram guerras de conquistas e furacões inglórios de suposta missão de conversões percorreram os continentes destruindo povos e etnias. E eis o abissal parado xo: em nome do Deus do amor pregou-se o ódio, implantou-se o terror, calaram-se as vozes dissonantes, triunfaram os que fizeram da ética um conceito de supremacia e não de igualdade e justiça, dominaram-se as mentes e corações foram subjugados. A ignomínia daqueles que usam o sagrado em benefício próprio ou de interesses subalternos é, de todos, o maior crime contra a existência da religião. A realidade é que nenhum grupo cresceu mais e tanto mal fez à humanidade que o dos hipócritas, os vendilhões do templo que por Jesus foram chicoteados naquele dia longínquo.

Mesmo aqueles que não são religiosos não devem desconhecer a força imagética da religião como elemento para (re-) ligar (do termo religare, a etimologia latina para religião) o homem ao sagrado e que se faz presente ao longo da História da humanidade. É por isso que digo que os hipócritas são os maiores inimigos da religião. – aqueles a quem o Cristo, conforme Mateus, apostrofou: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia.” Em poucas épocas, como esta que vivemos, houve tantos desses vendilhões triunfantes.

Não estou me referindo apenas aos hipócritas da religião, mas aos de todas as classes, aos das profissões, e sobretudo, aqueles que fazem da política um modo de vida para si próprios, enfim àqueles para os quais a ética não passa de uma mera palavra, sem maior significado nos atos. O pensador São João Crisóstomo chegou mesmo a dizer que: “Nada provoca maior dano que a hipocrisia. O mal, oculto sob a aparência do bem, é muito mais eficiente.”

Enfim, qual a figura do Cristo que, a cada um individualmente, nos indica ser a mais forte, mais marcante, mais adequada para ser lembrada nesta nossa época que parece ser aquela do triunfo dos vendilhões?

E indago, talvez ingenuamente, este final de ano não seria um momento propício para, além da troca de presentes, pararmos também para refletirmos um pouco mais sobre uma época (que tempo é este?) em que, em nome de Cristo ou dizendo ser a ele fiel, praticam-se tantas ignomínias, se cometem tantas desfaçatezas, se apunhala tanto a honra?



* SEBASTIÃO CARLOS é escritor e advogado



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